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terça-feira, 24 de abril de 2012

É melhor a "dádiva" da ignorância ou a "dor" da consciência?


Durante a nossa vida temos a tendência de aprender coisas novas, e muitas vezes descobrimos que aquilo que fazíamos era algo errado, mesmo que parecesse ser tão comum e certo. Pois é, este texto vem tratar de algo em específico que aconteceu comigo em relação à liturgia. Antes de tudo é necessário traçar um trajeto histórico.

ATENÇÃO: já aviso que o texto é um cadim longo, mas que acho importante a leitura.

Moysés Azevedo
Tudo começou em 1994. Eu era uma pessoa que não gostava da Igreja Católica e achava o papa um babaca, e tinha uma preferência pela esquerda (ainda que moderada) ... mas no meio do ano tive uma experiência pessoal com Deus, daquelas que derrubam os corações mais duros e resistentes. Como diria Moysés Azevedo (fundador da Comunidade Católica Shalom), tive o choque do Ressuscitado, algo semelhante ao que São Tomé teve ao encontrar o Cristo após a ressurreição.

Como esta experiência foi na Igreja Católica, eu fiquei meio que contrariado ... afinal, era ela "minha inimiga". Mas a coisa foi séria, o "choque" foi grande, e isso me pedia mudanças. Chato como sou, fui estudar mais a Igreja ... acabei me apaixonando por ela e pelo papa.

Isto tudo ocorreu na Comunidade Católica Vale de Saron (formada basicamente por jovens), que é uma das novas comunidades com a espiritualidade da Renovação Carismática Católica (RCC). Graças a Deus foi em um ambiente sadio, sem as loucuras que já vi muitas vezes ocorrer na RCC (que não é algo generalizado, mas existe). De qualquer forma, comecei a gostar e aprender sobre a Santa Missa, até porque se tratava de uma celebração um pouco mais "animada" que a maioria dos locais que conheci.

Como muitos dos jovens que tem esta nova experiência, logo comecei a me questionar qual seria o meu lugar nesse mundão de Deus, e busquei um sacerdote dos Legionários de Cristo (LC) para conversar, e acabei parando em um retiro vocacional em Itú-SP ... na verdade era o período de postulantado para entrar na congregação, e aqui tive alguns choques. Vale lembrar que eu vinha de uma realidade da RCC (ainda que bem moderada), com o uso dos dons carismáticos (não quero entrar na discussão se existem ou não), missa "animadinha", músicas mais agitadas, rezar de braços levantados e em alta voz, etc. ... aí caio de paraquedas em uma realidade mais tradicional, com Missa mais silenciosa, oração mais contida, etc. ... foi meu primeiro momento de contato com uma liturgia melhor celebrada.

Aqui consegui me aprofundar mais sobre a liturgia (ainda que muito pouco se comparado a hoje), mas o melhor foi que passei a apreciar o silêncio, a prestar mais atenção em cada momento da Missa, deixar o sentimentalismo de lado. Foi meu primeiro momento litúrgico mais maduro.

Fiquei lá um mês, que foi o tempo para ver que o sacerdócio não era a minha vocação. Vejam só, só não fiquei porque não era a minha vocação (descobri na oração que meu caso era o matrimônio mesmo), pois a minha vontade era de ficar ... e nem era por ser padre, mas sim pela experiência mais madura com Deus.

Retornei e tive outro choque ... o silêncio não veio junto. Passei uns meses para me readaptar com a liturgia da RCC. Importante dizer: as Missas do Vale de Saron poderiam passar como muitas das celebrações de paróquias, podendo inclusive afirmar que não se tratavam de "Missas carismáticas" (sei que muitos vão entender). Mesmo assim, eram bem diferentes do que passei com a LC.

O ditado já diz: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. De tanto participar das celebrações no Vale de Saron tudo se tornou hábito e acabei incorporando como certo ... afinal, todo mundo gostava e não tinha nenhuma maluquice.

Por diversos motivos que não cabem aqui discutir, acabei me desligando da comunidade no final de 1997 e em 1998 me aproximei mais do pessoal da coordenação da RCC. Mais uma vez Deus foi muito bom comigo, pois foi em um período e com uma turma que não era de malucos. Em verdade as Missas eram muito parecidas com as do Vale de Saron, e quando vinha algum doido a gente já descartava.

OBSERVAÇÃO: quando falo dos malucos da RCC não estou generalizando, mas tem muita gente sem noção mesmo, e de 1994 para cá a coisa piorou. E se quem estiver lendo for da RCC, por favor, não quero que pense que estou dizendo que VOCÊ é um desses doidos ... ou não.

No início de 2000 me afastei da RCC porque estava chegando em Curitiba uma missão da Comunidade Católica Shalom (que no primeiro mês os missionários ficaram na minha casa). Vi algo BEM diferente da RCC, ainda que se trate também de uma das novas comunidades com espiritualidade carismática.

As orações eram mais profundas, eles rezavam alguns momentos da Liturgia das Horas, havia formação mais aprofundada. Ao mesmo tempo em que me apaixonei fiquei com medo (engraçado, né?). Para encurtar, entre idas e vindas, em 2007 comecei a me aproximar do serviço da Liturgia no Shalom, e nesta hora foi que vi como estava cru na matéria.

Chato que sou, decidi estudar. Formamos um grupo no Shalom de Curitiba para nos aprofundar mais e mais na Liturgia, não só aprendendo o modo correto de fazer, mas o porque de cada coisa. Buscamos livros, estudamos principalmente pelo Missal e pelo Cerimonial dos Bispos, e aos poucos tudo foi se esclarecendo e eu cada vez mais me apaixonando. Nesta hora eu já repetia as palavras de Santo Agostinho: 

"Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. Estavas comigo e não eu contigo. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz."

Ainda que Santo Agostinho estivesse se referindo à relação dele com Deus, para mim valia também sobre a minha relação com a Liturgia. A partir daqui posso dizer que nasceu uma consciência litúrgica.

As celebrações no Shalom passaram a ser mais belas e muito melhor celebradas, mandamos fazer túnicas para todos os que serviam, 3 batinas com sobrepeliz (uma é a minha), e para mim o ápice foi quando fizemos amitos ... "HABEMUS AMITO!", eu dizia. Era como tivéssemos dado um grande passo de respeito ao Sagrado (até porque conhecíamos MUITAS pessoas que nem sabiam o que é o amito ... se você não sabe, leia AQUI). Tudo estava indo muito bem.

Aos poucos comecei a pesquisar mais, fui para a internet buscar novos subsídios e acabei encontrando no orkut (sim, eu já tive um perfil lá) algumas pessoas que gostavam, discutiam e ensinavam sobre liturgia ... aí lascou tudo!!!

Sim, no Shalom nós estudávamos e nos aprofundávamos sobre a Liturgia, e buscávamos fazer e ter o melhor dos materiais que conseguíamos ... mas acabei descobrindo que ainda tinha muito, mas MUITO chão para percorrer ... vi que pouco ou quase nada sabia.

Comecei a estudar os documentos do Concílio Vaticano II, o que os Papas pós-concílio disseram, em especial documentos e pronunciamentos dos Papas João Paulo II e Bento XVI. Deste estudo (e de mais outros textos e documentos) formei certa bagagem de conhecimento (mas ciente que ainda tenho MUITO a aprender) que me fez ver que muitas celebrações litúrgicas que participei (e ainda participo) estão muito erradas.

Com o que aprendi acabei escrevendo aqui no blog alguns textos (Vivência da LiturgiaA celebração do SagradoPor uma Liturgia bem vivida e praticada e Aprenda com o Caminho Neocatecumenal), mas vou fazer uma confissão: não sei se os textos serviram para algo além de ser taxado de tradicionalista (se alguém aproveitou algo dos textos, peço que comentem aqui), ainda que todos tenham sido escritos sem "achismo", mas com citações diretas e claras do que pensa a Santa Sé a respeito da Liturgia.

A partir daqui a consciência chegou a se tornar "dor", e em alguns momentos cheguei a pensar que ignorância era uma "dádiva", pois (...) a quem muito se houver confiado, mais será reclamado (...) (Lucas 12, 48).

Hoje, diante do que já conheço de Liturgia e sua imensa importância na vida da Igreja, é muito ruim ver grupos/movimentos/comunidades/paróquias que gostam de criar coisas para deixar a Missa bonita. É um daqueles casos que o Papa Bento XVI já mostrava ser um absurdo desde o período em que era cardeal:

A liturgia não vive de surpresas “simpáticas”, de intervenções “cativantes”, mas de repetições solenes (…) Também por isso ela deve ser “predeterminada”, “imperturbável”, porque através do rito se manifesta a santidade de Deus. Ao contrário, a revolta contra aquilo que foi chamado “a velha rigidez rubricista”, (…) arrastou a liturgia ao vórtice do “faça-você-mesmo”, banalizando-a, porque reduzindo-a à nossa medíocre medida.
(Cardeal Ratzinger, A Fé em crise; 1985)

Não quero citar nomes de forma direta, mas tem muita gente fazendo m*@#$ com a Liturgia ... só porque acha que pode, que mais importa é ficar a Missa bonita e o povo sair tocado ... PARABÉNS!!!! Sua atitude é digna de comparação à Teologia da Libertação e seus discursos sem noção. Isso me fez deixar de participar de celebrações litúrgicas com amigos, pois meu coração sofre ao ver alguns erros, em especial de quem se espera muito.

Quer saber, vou citar algumas coisinhas que vejo por aí e que estão erradas, e mesmo que se diga que não pode, ainda assim insistem em fazer: 

- danças antes, durante e depois da Missa: leiam a parte final do texto Por uma Liturgia bem vivida e praticada e verão que dança na Missa não pode.

- música no momento da elevação do Corpo e do Sangue de Cristo: este é um momento de profundo silêncio, mas tem gente que gosta de colocar um fundo musical ou cantar algum trecho de adoração. NÃO PODE!!!! Toda, repito, TODA a oração eucarística deve ser acompanhada em profundo silêncio (IGMR 78). 

- música (ainda que dedilhada) durante as orações proferidas pelo sacerdote: a Instrução Geral do Missal Romano é clara ao dizer que não pode (IGMR 32), mas tem gente que tem mania de querer deixar bonitinho. 

- gritos e orações em voz bem alta: vejam que aqui não coloquei só na Missa, pois tem gente que faz bastante isso em adoração ao Santíssimo Sacramento. Já vi muito católico reclamante de evangélico pentecostal que fica gritando como se Deus fosse surdo ... pois é, tem gente que gosta de fazer o mesmo (e aqui os de espiritualidade carismática são a maioria - ainda que não todos). Meu caro, se para expressar sua fé você precisa gritar, sua fé é de uma criança imatura. Uso as palavras do Papa Bento XVI: "Deus fala no silêncio, mas é preciso saber escutar". Enfim, PAREM DE GRITAR!!!!!

- Diversos momentos de oração durante a Missa: Missa não é grupo de oração, por isso, não é para ficar criando momentos de oração durante a celebração. Esse negócio de ficarem a toda momento chamando o povo para rezar é algo desnecessário, ainda mais se levando em conta que já existem prescritas TODAS as orações cabíveis ... basta ver o Missal.

- Oração em línguas durante a Missa: o Documento 53 da CNBB diz - "Não se introduzam elementos estranhos à tradição litúrgica da Igreja ou que estejam em desacordo com o que estabelece o Magistério ou aquilo que é exigido pela própria índole da celebração" (Doc. 53, 40). Portanto, é importante se perguntar: a oração em línguas é algo normal na tradição litúrgica da Igreja? A resposta é NÃO!!! Então não resta dúvida que não cabe.

Aí é claro que vem alguma alma doída pelos comentários acima e vai dizer: VOCÊ É UM LEGALISTA!!! O QUE IMPORTA É O CORAÇÃO ESTAR LIGADO EM DEUS!!! A LEI MATA!!! ...

Para responder faço minhas as palavras do Papa João Paulo II: 

(...) Atualmente também deveria ser redescoberta e valorizada a obediência às normas litúrgicas como reflexo e testemunho da Igreja, una e universal, que se torna presente em cada celebração da Eucaristia. O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo o seu amor à Igreja. (…) A ninguém é permitido aviltar este mistério que está confiado às nossas mãos: é demasiado grande para que alguém possa permitir-se de tratá-lo a seu livre arbítrio, não respeitando o seu caráter sagrado nem a sua dimensão universal. (...)
(Papa João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, n. 52 - destaquei)

Eu decidi viver o melhor que posso em termos de liturgia, deixando a ignorância de lado para assumir uma verdadeira consciência litúrgica, e esta não me deixa mais participar de uma celebração e ser conivente com esses erros e abusos, sejam eles feitos por ignorância ou não.

Não tenho aqui a intenção de meter o dedo na cara de ninguém, mas peço: antes de fazer qualquer coisa em termos litúrgicos, procure saber se pode ser feito. Chega de Missa com boas intenções, precisamos de Missas bem celebradas.

E reitero o que já disse antes: enquanto não se tomar as Missas celebradas no Vaticano como modelo, teremos muitas missas sertanejas, afro, gaúcha, crioula, carismática, do coco, etc.
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Fica autorizada a reprodução integral deste post, desde que citada a fonte conforme texto a seguir:
BRANDALISE, André Luiz de Oliveira, É melhor a "dádiva" da ignorância ou a "dor" da consciência?, publicado em 24/04/12 no blog “André Brandalise” - http://alobrandalise.blogspot.com/2012/04/e-melhor-dadiva-da-ignorancia-ou-dor-da.html

terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma mãe e duas gestações com anencefalia

Fico muito feliz de poder ajudar a essas mulheres saberem que não estão sozinhas, porque tem alguém que já passou por este momento tão doloroso, mas que com a graça de Deus tudo é superado.

Eu tive a oportunidade de conhecer um casal maravilhoso que passou por dois momentos muito complicados em sua vida: duas gestações com diagnóstico de anencefalia e outras complicações.

Diante do julgamento do STF na semana passada, entrei em contato com a amiga Nissi Bertuol e perguntei a ela se poderia contar como foi passar pelas gestações, e acabou saindo uma entrevista. Uma história de fé e perseverança, que transcrevo aqui:

Vocês passaram por duas gestações em que as crianças foram diagnosticadas com anencefalia, certo?

Sim. Minha primeira filha se chamava Marià e a segunda se chamava Maria Clara.

Quando ocorreu a primeira, como vocês reagiram de primeiro momento?

Foi muito difícil. Nunca na minha vida imaginei receber a noticia de que o meu bebê não tinha os dois braços e as duas pernas, e que a cabeça seria maior que o corpinho. Foi como se tivessem tirado o chão dos meus pés.

Mesmo com este diagnóstico, o bebê ainda estava vivo?

Sim, a criança respirava só porque estava ligada ao meu cordão umbilical. Quando cortaram o cordão a criança morreu. 

O que os médicos disseram a vocês quando deram o diagnóstico? Qual foi a indicação deles? 

Que deveríamos abortar porque essa criança não sobreviveria até os três meses dentro da barriga, que seria um aborto natural de qualquer maneira. 

Diante do que disseram os médicos, qual foi a decisão de vocês? 

Nós decidimos aceitar a vontade de Deus nas nossas vidas, e que se ele permitiu tudo isso, nós nos calamos e aceitamos a vontade Dele nas nossas vidas. E ficamos muito em oração esperando que a criança viesse a nascer.

Com certeza deve ter sido uma decisão difícil, ainda mais a ser tomada logo após receber a notícia. Era a primeira gestação de vocês? 

Sim, e depois de dois anos fiquei grávida de novo e aconteceu o mesmo diagnóstico: Osteogênese Congênita II.

As duas gravidezes foram até o nono mês de gestação. Elas nasciam e quando cortavam o cordão umbilical não conseguiam respirar sozinhas. 

A primeira não deve ter sido fácil, mas aí vem outra. O que passou pela cabeça de vocês nesta hora? 

Foi mais difícil ainda aceitar porque não tinha uma explicação lógica, eu tinha feito vários exames antes de engravidar e não acharam nada. Eles diziam que entre 1000 casais acontecia com um e era só com o primeiro filho.

Aí nesta hora você pergunta o porquê comigo meu Deus, e a resposta não vem porque é um mistério Divino que só quem passa para saber o que quer dizer passar por esta dor. Tivemos que viver na pele a verdadeira fé neste Deus. 

Nos dois casos vocês não decidiram abortar, mesmo sabendo que as crianças não sobreviveriam após o parto. Alguém convenceu vocês a isso? 

Nos dois casos, já com três meses de gravidez haviam dito que as crianças não iriam sobreviver. Mas eu jamais iria abortar uma criança, porque sei que jamais me perdoaria. E ninguém nos convenceu, decidimos juntos, sempre através da oração.

Vocês tiveram apoio de alguém? 

Sim, da nossa amada Igreja Católica e da Comunidade Católica Vale de Saron que rezou e intercedeu muito por nós. Se nós não estivéssemos ali na comunidade eu não sei como teria sido, porque a dor de ter uma filha dentro da barriga que seria um ser vegetativo era uma dor muito grande de ser superada sozinhos. 

Dentro da Igreja Católica, como foi este apoio? Algum padre ou bispo? 

Sim, de vários padres com quem confessávamos as nossas fraquezas nos momentos de dores. Um deles foi o Padre Sérgio que me parece que se tornou Bispo, não tenho absoluta certeza porque faz 15 anos.

Dom Pedro Fedalto também. Ele nos recebeu pessoalmente e nos deu a sua benção. Foi uma graça enorme poder estar na frente dele e receber as palavras de consolo que ele nos deu. 

Após a segunda gestação, vocês adotaram uma menina, não foi? 

Sim, ela se chama Mariane Bertuol e hoje esta com 14 anos. Ela foi um presente de Deus nas nossas vidas, e só por Deus mesmo que ela caiu em nossos braços, através da intercessão de Maria. 

Hoje, mais de 14 anos após o que vocês passaram, há algum arrependimento? 

Arrependimento nenhum, somente gratidão porque fomos os escolhidos para vivenciar nove meses com essas crianças especiais que hoje intercedem por nós lá no céu. 

Qual era a sua sensação de mãe durante as gestações? 

Na segunda gravidez eu imaginei que a segunda sobreviveria, aí tive a iniciativa de procurar a APAE quando estava no sexto mês de gestação, para apreender a conviver com uma criança especial no dia-a-dia. 

Quando isso não se concretizou, a decepção foi muito grande? 

Olhe André, como ninguém sabia do nosso sofrimento, eu resolvi me calar e agir como se estivesse tudo bem. Mas o mais doido era que as pessoas colocavam a mão na minha barriga como uma forma doce de perguntar, ela perguntava "e aí, já está chutando muito? Ela se mexe muito?",  e eu respirava fundo e dizia que sim só para não dar a noticia de uma maneira brusca, para não deixar a pessoa se sentindo mal na minha frente, porque ninguém imaginava o que estávamos passando.

Por isso que eu disse que nos resolvemos nos calar e esperar a vontade do Senhor. 

As pessoas sabiam do diagnóstico? 

A maioria não, só os amigos do Vale de Saron e familiares. 

Vocês tinham medo da reação das pessoas? 

Medo não, e sim não queria deixar as pessoas sem graça na nossa frente, aí resolvi guardar tudo no meu coração de mãe, porque alguns que eu contei se sentiam super mal sem saber o que me dizer. Eu ficava com dó da situação que a pessoa achava que tinha dado uma bola fora, entende? 

Entendo. Se tudo isso ocorresse hoje, que decisão vocês tomariam? 

Com certeza seria a mesma reação e convicção de que devemos aceitar as provas que Deus coloca nas nossas vidas e vivermos convictos na fé. Porque Deus é muito fiel e não nos abandona ... jamais. 


Como o Reginaldo vê tudo isso? 

Reginaldo sempre foi um homem de muita oração, sempre foi fiel a Deus e na Sua vontade. Não nos arrependemos de nada, tudo foi uma lição de vida para aumentar a nossa fé.
 
Qual o conselho que você daria para uma mãe que recebe um diagnóstico tão difícil quanto estes?

Se colocar nas mãos do Senhor, porque Ele pode mudar qualquer situação. Mas o meu conselho é se ajoelhar nos pés de Jesus e entregar toda a tua dor, e jamais deixar de lutar por esta criança que Deus colocou na tua vida e na tua barriga.

O nosso Deus é o Deus do impossível. Se coloque aos pés de Jesus e diga esta frase: Senhor que não se faça a minha vontade mas sim a tua na minha vida, amém.

Minha irmã nunca desista de dar a Luz a teu filho ou filha, porque Deus na sua infinita misericórdia te recompensará, tenha fé. 

Para finalizar trago as palavras do Reginaldo Bertuol:
(...) cada pessoa vive de uma maneira, nós procuramos refúgio em Deus e tentamos dar um sentido a essa dor. Não é que a encontramos, mas tivemos que aceitar, e a coisa mais sábia que nos ajudou foi Dom Pedro dizer simplesmente "Não matem, deixe a natureza fazer seu curso, se sobreviver Deus dará forças, se não sobreviver vocês fizeram a sua parte, e isso tem valor". (...)
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Fica autorizada a reprodução integral deste post, desde que citada a fonte conforme texto a seguir:
BRANDALISE, André Luiz de Oliveira, Uma mãe e duas gestações com anencefalia, publicado em 17/04/12 no blog “André Brandalise” - http://alobrandalise.blogspot.com.br/2012/04/uma-mae-e-duas-gestacoes-com.html
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