terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma mãe e duas gestações com anencefalia

Fico muito feliz de poder ajudar a essas mulheres saberem que não estão sozinhas, porque tem alguém que já passou por este momento tão doloroso, mas que com a graça de Deus tudo é superado.

Eu tive a oportunidade de conhecer um casal maravilhoso que passou por dois momentos muito complicados em sua vida: duas gestações com diagnóstico de anencefalia e outras complicações.

Diante do julgamento do STF na semana passada, entrei em contato com a amiga Nissi Bertuol e perguntei a ela se poderia contar como foi passar pelas gestações, e acabou saindo uma entrevista. Uma história de fé e perseverança, que transcrevo aqui:

Vocês passaram por duas gestações em que as crianças foram diagnosticadas com anencefalia, certo?

Sim. Minha primeira filha se chamava Marià e a segunda se chamava Maria Clara.

Quando ocorreu a primeira, como vocês reagiram de primeiro momento?

Foi muito difícil. Nunca na minha vida imaginei receber a noticia de que o meu bebê não tinha os dois braços e as duas pernas, e que a cabeça seria maior que o corpinho. Foi como se tivessem tirado o chão dos meus pés.

Mesmo com este diagnóstico, o bebê ainda estava vivo?

Sim, a criança respirava só porque estava ligada ao meu cordão umbilical. Quando cortaram o cordão a criança morreu. 

O que os médicos disseram a vocês quando deram o diagnóstico? Qual foi a indicação deles? 

Que deveríamos abortar porque essa criança não sobreviveria até os três meses dentro da barriga, que seria um aborto natural de qualquer maneira. 

Diante do que disseram os médicos, qual foi a decisão de vocês? 

Nós decidimos aceitar a vontade de Deus nas nossas vidas, e que se ele permitiu tudo isso, nós nos calamos e aceitamos a vontade Dele nas nossas vidas. E ficamos muito em oração esperando que a criança viesse a nascer.

Com certeza deve ter sido uma decisão difícil, ainda mais a ser tomada logo após receber a notícia. Era a primeira gestação de vocês? 

Sim, e depois de dois anos fiquei grávida de novo e aconteceu o mesmo diagnóstico: Osteogênese Congênita II.

As duas gravidezes foram até o nono mês de gestação. Elas nasciam e quando cortavam o cordão umbilical não conseguiam respirar sozinhas. 

A primeira não deve ter sido fácil, mas aí vem outra. O que passou pela cabeça de vocês nesta hora? 

Foi mais difícil ainda aceitar porque não tinha uma explicação lógica, eu tinha feito vários exames antes de engravidar e não acharam nada. Eles diziam que entre 1000 casais acontecia com um e era só com o primeiro filho.

Aí nesta hora você pergunta o porquê comigo meu Deus, e a resposta não vem porque é um mistério Divino que só quem passa para saber o que quer dizer passar por esta dor. Tivemos que viver na pele a verdadeira fé neste Deus. 

Nos dois casos vocês não decidiram abortar, mesmo sabendo que as crianças não sobreviveriam após o parto. Alguém convenceu vocês a isso? 

Nos dois casos, já com três meses de gravidez haviam dito que as crianças não iriam sobreviver. Mas eu jamais iria abortar uma criança, porque sei que jamais me perdoaria. E ninguém nos convenceu, decidimos juntos, sempre através da oração.

Vocês tiveram apoio de alguém? 

Sim, da nossa amada Igreja Católica e da Comunidade Católica Vale de Saron que rezou e intercedeu muito por nós. Se nós não estivéssemos ali na comunidade eu não sei como teria sido, porque a dor de ter uma filha dentro da barriga que seria um ser vegetativo era uma dor muito grande de ser superada sozinhos. 

Dentro da Igreja Católica, como foi este apoio? Algum padre ou bispo? 

Sim, de vários padres com quem confessávamos as nossas fraquezas nos momentos de dores. Um deles foi o Padre Sérgio que me parece que se tornou Bispo, não tenho absoluta certeza porque faz 15 anos.

Dom Pedro Fedalto também. Ele nos recebeu pessoalmente e nos deu a sua benção. Foi uma graça enorme poder estar na frente dele e receber as palavras de consolo que ele nos deu. 

Após a segunda gestação, vocês adotaram uma menina, não foi? 

Sim, ela se chama Mariane Bertuol e hoje esta com 14 anos. Ela foi um presente de Deus nas nossas vidas, e só por Deus mesmo que ela caiu em nossos braços, através da intercessão de Maria. 

Hoje, mais de 14 anos após o que vocês passaram, há algum arrependimento? 

Arrependimento nenhum, somente gratidão porque fomos os escolhidos para vivenciar nove meses com essas crianças especiais que hoje intercedem por nós lá no céu. 

Qual era a sua sensação de mãe durante as gestações? 

Na segunda gravidez eu imaginei que a segunda sobreviveria, aí tive a iniciativa de procurar a APAE quando estava no sexto mês de gestação, para apreender a conviver com uma criança especial no dia-a-dia. 

Quando isso não se concretizou, a decepção foi muito grande? 

Olhe André, como ninguém sabia do nosso sofrimento, eu resolvi me calar e agir como se estivesse tudo bem. Mas o mais doido era que as pessoas colocavam a mão na minha barriga como uma forma doce de perguntar, ela perguntava "e aí, já está chutando muito? Ela se mexe muito?",  e eu respirava fundo e dizia que sim só para não dar a noticia de uma maneira brusca, para não deixar a pessoa se sentindo mal na minha frente, porque ninguém imaginava o que estávamos passando.

Por isso que eu disse que nos resolvemos nos calar e esperar a vontade do Senhor. 

As pessoas sabiam do diagnóstico? 

A maioria não, só os amigos do Vale de Saron e familiares. 

Vocês tinham medo da reação das pessoas? 

Medo não, e sim não queria deixar as pessoas sem graça na nossa frente, aí resolvi guardar tudo no meu coração de mãe, porque alguns que eu contei se sentiam super mal sem saber o que me dizer. Eu ficava com dó da situação que a pessoa achava que tinha dado uma bola fora, entende? 

Entendo. Se tudo isso ocorresse hoje, que decisão vocês tomariam? 

Com certeza seria a mesma reação e convicção de que devemos aceitar as provas que Deus coloca nas nossas vidas e vivermos convictos na fé. Porque Deus é muito fiel e não nos abandona ... jamais. 


Como o Reginaldo vê tudo isso? 

Reginaldo sempre foi um homem de muita oração, sempre foi fiel a Deus e na Sua vontade. Não nos arrependemos de nada, tudo foi uma lição de vida para aumentar a nossa fé.
 
Qual o conselho que você daria para uma mãe que recebe um diagnóstico tão difícil quanto estes?

Se colocar nas mãos do Senhor, porque Ele pode mudar qualquer situação. Mas o meu conselho é se ajoelhar nos pés de Jesus e entregar toda a tua dor, e jamais deixar de lutar por esta criança que Deus colocou na tua vida e na tua barriga.

O nosso Deus é o Deus do impossível. Se coloque aos pés de Jesus e diga esta frase: Senhor que não se faça a minha vontade mas sim a tua na minha vida, amém.

Minha irmã nunca desista de dar a Luz a teu filho ou filha, porque Deus na sua infinita misericórdia te recompensará, tenha fé. 

Para finalizar trago as palavras do Reginaldo Bertuol:
(...) cada pessoa vive de uma maneira, nós procuramos refúgio em Deus e tentamos dar um sentido a essa dor. Não é que a encontramos, mas tivemos que aceitar, e a coisa mais sábia que nos ajudou foi Dom Pedro dizer simplesmente "Não matem, deixe a natureza fazer seu curso, se sobreviver Deus dará forças, se não sobreviver vocês fizeram a sua parte, e isso tem valor". (...)
_____________________________________
Fica autorizada a reprodução integral deste post, desde que citada a fonte conforme texto a seguir:
BRANDALISE, André Luiz de Oliveira, Uma mãe e duas gestações com anencefalia, publicado em 17/04/12 no blog “André Brandalise” - http://alobrandalise.blogspot.com.br/2012/04/uma-mae-e-duas-gestacoes-com.html

10 comentários:

  1. Sou mãe de uma criança especial, e sei o quão difícil é lutar dia a dia pela vida e pela integridade desta. Me fortalece muito saber que existem mulheres corajosas e tementes a esse Deus do impossível, que faz nova todas as coisas. A vida é um sopro de Deus e como tal deve ser respeitada até que esse sopro já não exista mais. Só quem é mãe, pai, de alguém tão especial sabe que não importa o tempo que passamos juntas e sim a cham-se, o privilégio de te-las conosco. É como se o céu estivesse mais perto.

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  2. Alexandre Luiz Antonio da Luz8 de agosto de 2012 10:43

    Caro André:-

    Depois eu ví a autorização!!! Eu tenho problemas com as letras miúdas!!! Há!!! Há!!! Há!!! Há!!!
    Um grande abraço:-

    Alexandre.

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  3.  Alexandre, conforme coloquei no final do post, está autorizada a reprodução.

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  4. Alexandre Luiz Antonio da Luz8 de agosto de 2012 10:44

    Caro André:-

    Brilhante post!!! Gostaria da sua permissão para reproduzí-lo no meu Blog!!!
    Você é aqui de Curitiba??? Vamos fazer uma grande manifestação Pró-Vida aqui em Curitiba, no dia 23 de Junho e gostaria do seu apoio, posso contar com ele???
    Um grande abraço:-

    Alexandre Luiz Antonio da LuzEx-Presidente da Sociedade Protetora dos Nascituros Imaculada Conceição de MariaMovimento oficial de defesa da vida nascitura da Arquidiocese de Curitiba

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  5. Julianna Cieczinski Abe8 de agosto de 2012 10:45

    Que testemunho maravilhoso!!! Ontem fiquei sabendo que a filha de uma funcionária aqui da empresa, que está no 5º mês de gestação, foi pega de supresas quando a médica falou que a criança seria toda perfeitinha, se não estivesse sem a caixa craniana, logo o cérebro dela se formou todo para o lado de fora da cabeça, na nuca. Mais do que depressa, a médica que fez esse exame falou que seria melhor ela tirar a nenem. Estamos em oração, para que Deus ilumine os caminhos dos médicos que vão examiná-la a partir de agora, e que dêem uma esperança para essa mãe, pois só Deus pode decidir a hora de nascer e de morrer, nós não podemos decidir sobre a vida, matar um serzinho tão indefeso, sem dar a chance de sobreviver!!! Um abraço a todos!!!

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  6. É sempre bom saber de casos como o dessa família, de alguém que tem a coragem de viver experiências doloridas com muita fé, um testemunho que nos inspira. Escapando do campo da fé e caindo no jurídico, o voto do ministro Cezar Peluso é impecável, assista que vale a pena cada um dos seus 44 minutos http://youtu.be/fj4DT39Iojo

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  7. Que Deus continue abençoando vcs grandemente...

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  8. Um testemunho de obediência!

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  9. Alberto, no caso dela foi diagnosticado a anencefalia, talvez até decorrente da osteogênese congênita II.

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  10. Muito bonito o testemunho. Quem vivenciou casos semelhantes na familia pode compartilhar sentimentos como este. No nosso caso, apesar da má formaçao do feto, optaram por aguardar os desdobramentos da gestão, o que resultou em um aborto natural. Mas nenhum dos casos (nem o da depoente, nem o da minha familia)  dizem respeito a anencefalia.

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