domingo, 20 de novembro de 2011

A celebração do Sagrado


Hoje fui à 1a Comunhão do meu sobrinho, e por tudo que vi lembrei de um texto meu que foi publicado no blog do meu amigo Carmadélio (A norma litúrgica e o Sagrado), que passo reproduzir quase totalmente:

"(...)
Tive a surpresa de ter um texto publicado neste blog, e acredito que preciso complementá-lo sobre uma situação importantíssima: porque existe a norma litúrgica? 

Pois bem, todos devem saber que a missa (por exemplo) não nasceu de um vez só. Por vários anos a Igreja Católica foi complementando o rito conforme o magistério e a tradição indicavam, o que demonstra que não foi um conjunto de regras criadas por meia dúzia de velhinhos sentados em uma sala escura e escondida. 

Já ouvi dizerem que as normas litúrgicas foram criadas para o homem (algo semelhante a dizer que “a lei foi feita para o homem e não o homem para a lei”). Na verdade não é assim. Toda a liturgia é fruto de estudos e orações, e tem como finalidade a adoração a Deus, e secundariamente serve para a edificação do homem. Isso está claro na Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, que diz: 

Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros - presta a Deus o culto público integral. 
(Sacrosanctum Concilium, 7 – negritei)

E é aqui que vejo uma grande crise acerca da correta vivência da liturgia, pois: se qualquer celebração litúrgica é ação sagrada por excelência; se a finalidade da liturgia é a adoração a Deus; se as normas litúrgicas existem para a correta adoração a Deus; por que muitos gostam de relativizar a liturgia para adequar ao que lhe acha mais conveniente? Por que muitos não dão importância à norma litúrgica? Por que? POR QUE???? O que me vem à cabeça é que se perdeu a noção do sagrado, e mostro isso em fatos concretos. 

Tenho a mania de ficar observando as atitudes de muitos durante a celebração eucarística, e no momento da comunhão vejo como muitos tratam o sagrado: com completo descaso. A forma como pegam (sim, muitos “pegam” e não “recebem”) a comunhão é semelhante a se meter em uma fila para receber um bom bom.

Um tempo atrás li um texto do meu amigo Pe. Leonardo Wagner acerca da comunhão (http://leonardowagner.wordpress.com/2009/10/06/voce-sabe-comungar/), e por mais cômicos que sejam os diversos erros cometidos, apenas demonstram qual é a verdadeira importância que muitos dão ao sagrado.

Meus caros, quando se entre na fila da comunhão não vai se pegar um pedaço de pão, mas sim receber o CORPO DE CRISTO (quer algo mais sagrado???), e mesmo assim muitos agem com completo descaso. Ali está o Cristo vivo, que se doa a cada um, e tem gente que pega “um pedacinho de pão” e mete na boca sem qualquer cerimônia. 

É verdade que Jesus é seu amigo, mas antes disso ele é Deus, a quem devemos adoração, louvor, honra e glória. Não é o teu colega de trabalho, vizinho, etc,. É DEUS!!! Mostre respeito diante do Altíssimo. A norma litúrgica busca a verdadeira e correta adoração ao sagrado. Vejam o que diz a Introdução Geral ao Missal Romano: 

Os fiéis comungam de joelhos ou de pé, segundo a determinação da Conferência Episcopal. Quando comungam de pé, recomenda-se que, antes de receberem o Sacramento, façam a devida reverência, estabelecida pelas mesmas normas. 
(IGMR, 160 – negritei)

Sabem por que a reverência? Porque a comunhão de joelhos evidencia a reverência e adoração devidas a Deus, e se formos apenas chegar diante do Altíssimo para comungar de pé sem mostrar o devido e merecido respeito, estaremos mostrando descaso ao sagrado. Tenho por hábito fazer inclinação profunda (ou vênia) antes de comungar, e tirei isso do do próprio IGMR, quando diz: 

Ajoelhem-se, porém, durante da consagração, a não ser que, por motivo de saúde ou falta de espaço ou o grande número de presentes ou outras causas razoáveis não o permitam. Contudo, aqueles que não se ajoelham na consagração, façam inclinação profunda enquanto o sacerdote faz genuflexão após a consagração. 
(IGMR, 43 – negritei)

O que quero dizer é que a norma litúrgica não é um conjunto de regras, mas sim a melhor e mais correta forma de adoração a Deus. Quando se pede que respeitem a norma litúrgica não está se pedindo adesão a normas, mas sim que se dê valor e respeito ao sagrado. 

Acho muito interessante que para mostrar que as seitas religiosas não podem se comparar à Igreja Católica, utilizam como argumentos a tradição e o magistério. Pois bem, as normas litúrgicas foram criadas com base na tradição e magistério da Igreja, e ao mesmo tempo fazem parte da tradição e magistério … e mesmo assim tem gente que prefere não seguir as normas litúrgicas. Quer dizer, vangloriam-se porque a Igreja Católica tem tradição e magistério com quase 2000 anos, mas seguir o que eles colocam não precisa. Há um velho ditado para isso: casa de ferreiro, espeto de pau.

Já me chamaram de legalista por defender as normas litúrgicas. Sim, eu sou legalista, mas ao contrário dos que apenas enxergam leis, eu vejo o que tais normas representam, o que pretendem proteger, qual a sua finalidade. O que busco viver é o espírito litúrgico, que vai muito além da letra fria da lei.

Este é um chamado feito pela Santa Igreja para todos, sem distinção: 

É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos. 
(Sacrosanctum Concilium, 48 – negritei)
(...)"

E por que decidi reproduzir este texto de novo? Pois bem, a celebração de hoje (Cristo Rei + 1a Comunhão de 80 crianças) foi preparada com muito carinho, e isso estava claro, mas a "imensa boa vontade" de deixar tudo bonito para as crianças, seus pais e convidados, chutou o balde em diversas normas litúrgicas.

Muitos tentam "embelezar" as celebrações, mas fazem isto porque não conhecem a verdadeira beleza da liturgia. Pensam que se trata apenas de um "conjunto de regras chatas", mas só se ama o que se conhece.

Por isso recomendo a todos que porventura lerem este texto, que busquem conhecer a liturgia. Não apenas as regras, mas principalmente o seu significado. É um desafio, eu sei, mas posso dizer por experiência própria que no final valerá a pena.

Temos que voltar a celebrar o Sagrado, e não apenas celebrar. Devemos buscar sempre deixar tudo bonito, mas não a beleza com uma musiquinha animada (e muitas vezes inapropriada), mas sim um beleza de acordo com o que se está celebrando. Deixemos a "festa" para depois da Missa.

Como disse recetntemente o Papa Bento XVI em sua visita ao Benin, África:

O que deve predominar é a iniciativa da comunidade e da pessoa. Finalmente, eu diria que uma liturgia participativa é importante, mas uma que não seja sentimental. A liturgia não deve ser simplesmente uma expressão de sentimentos, mas deve emergir a presença e o mistério de Deus no qual ele entra e pelo qual nós nos permitimos ser formados.

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